Você já imaginou correr por sete dias seguidos, sem parar de verdade, e ainda assim quebrar um recorde mundial? Foi exatamente isso que Débora Simas fez neste domingo, 9 de agosto, no Beiramar Shopping, em Florianópolis.
Às 9h14, a ultramaratonista catarinense ultrapassou os 846,16 quilômetros. Essa marca pertencia à neozelandesa Emma Timmis, estabelecida em 2024. Ao final das 168 horas de prova, Débora fechou em 866,21 quilômetros e se tornou a nova recordista mundial feminina da modalidade.
Para quem acompanha o universo da corrida de resistência, essa conquista tem um peso especial. Débora já havia tentado o mesmo desafio em 2019, no mesmo shopping. Na época, percorreu 800,61 quilômetros e garantiu os recordes brasileiro e sul-americano. Sete anos depois, ela voltou com um objetivo claro: alcançar o topo do ranking mundial.
Dois anos de preparo, duas rotinas de trabalho
Muitos corredores acham difícil conciliar treino com rotina profissional. Débora foi além. Enquanto se preparava para o recorde, trabalhou durante o dia em uma agropecuária e, à noite, em uma lanchonete. Os últimos seis meses antes da prova tiveram uma carga de treino ainda mais intensa.
A trajetória da atleta no atletismo começou de forma inesperada, há 22 anos. Ela trabalhava em uma lanchonete dentro de uma academia quando decidiu disputar uma prova de nove quilômetros. Uma treinadora percebeu seu talento para longas distâncias e a direcionou para o esporte. Na primeira maratona oficial, Débora cruzou a linha de chegada em 3h27min e subiu ao pódio.
De lá para cá, soma cerca de 300 competições. Já foi tricampeã da Brasil 135 Ultramarathon e primeira brasileira a completar a 1000k Brasil, prova de mil quilômetros em dez dias. A vontade de buscar um recorde mundial nasceu depois de uma palestra do ultramaratonista Márcio Vilar, recordista mundial masculino da modalidade.
Como foi correr 168 horas dentro de um shopping

Durante sete dias, o Beiramar Shopping funcionou como casa, pista e centro de apoio. Uma estrutura montada atrás da esteira servia para os breves períodos de sono, higiene, atendimento médico e recuperação. Boa parte da alimentação e da hidratação aconteceu enquanto Débora seguia em movimento.
Dormir pouco fazia parte da estratégia. Nas primeiras noites, os períodos de sono giravam em torno de três horas, sempre ajustados conforme a quilometragem e o desgaste físico. A prova não seguiu uma linha reta: houve dores musculares, contraturas, câimbras e momentos em que a equipe precisou recalcular todo o plano.
“Foram sete dias muito intensos. Tive que enfrentar o sono, as dores, o cansaço e momentos em que a cabeça precisava ser mais forte do que o corpo”, contou Débora. “Procurei não pensar nos mais de 846 quilômetros. Pensava no próximo quilômetro, no próximo passo. Foi assim que consegui continuar.”
O momento mais difícil da prova
Na noite de quarta-feira, Débora sofreu uma câimbra forte e quase perdeu os sentidos. A equipe médica precisou agir rápido e revisar o planejamento dos dias seguintes.
O médico Daniel de Souza Carvalho, que acompanhou o desafio, destacou o peso do fator mental em provas de ultrarresistência. Segundo ele, condicionamento físico não basta: é preciso saber responder às adversidades no momento em que elas aparecem. Curiosamente, o sábado, apontado como um dos dias mais críticos, acabou sendo um dos melhores dias de Débora na esteira.
O treinador Paulinho Keto foi responsável por administrar o ritmo sem comprometer a chegada da atleta às últimas horas. A equipe monitorou quilometragem, desgaste e ritmo o tempo todo, alternando momentos de avanço com momentos de preservação. Na sexta-feira de manhã, a estratégia já mostrava resultado: Débora havia percorrido 601,29 quilômetros três horas antes do previsto.
Recuperação física: o papel da fisioterapia
Com o acúmulo de quilômetros, aumentaram as dores musculares, as contraturas e a necessidade de intervenções da fisioterapia. A madrugada de sexta para sábado foi uma das mais difíceis da semana.
O fisioterapeuta Geovany Eli Silveira Crespi explicou que a capacidade de suportar esse desgaste vem diretamente da preparação de longo prazo. Segundo ele, o trabalho da equipe era intervir, aliviar os sintomas e criar condições seguras para a atleta continuar. Agora começa uma nova etapa: sono, repouso, boa alimentação e fisioterapia contínua para a recuperação do corpo.
Quando a prova virou um desafio mental
Correr por sete dias exige mais do que preparo físico. Nos momentos de maior desgaste, Débora precisava recuperar a concentração e lembrar por que havia começado aquele desafio.
Esse suporte coube a Anderson Ramos Floriani, mentor da atleta, que ficou ao lado dela nos momentos mais críticos. Ele contou que seu papel não era fazer Débora correr mais rápido, mas ajudá-la a voltar quando o cansaço e a dor tomavam conta. Do início da madrugada de quinta-feira até domingo, Anderson dormiu apenas três horas.
A trilha sonora dos 168 quilômetros
A música acompanhou Débora muito antes de ela subir na esteira. Durante os meses de treino, ajudou a manter ritmo e concentração. Durante os sete dias de prova, ganhou uma função ainda maior: quebrar a repetição das horas na esteira e ajudar a atravessar os momentos de maior desgaste, especialmente durante as madrugadas.
Uma torcida que cresceu a cada quilômetro

O que começou como um sonho individual se transformou em uma mobilização coletiva. Durante os sete dias, o público pôde acompanhar a tentativa gratuitamente e, em alguns momentos, correr em esteiras instaladas ao lado da atleta. Muitas pessoas voltaram ao shopping em diferentes dias só para saber quantos quilômetros Débora já havia percorrido.
“Esse sonho começou sendo meu, mas deixou de ser só meu durante esses sete dias”, disse Débora. “Esse recorde é de cada pessoa que esteve comigo, da minha equipe e de todo mundo que torceu. É uma conquista nossa.”
Cerca de 110 profissionais participaram da operação, entre médicos, fisioterapeutas, enfermeira, nutricionista, treinador, árbitros e voluntários, em revezamento durante as 24 horas do dia. A coordenadora geral do desafio, Magda Chagas, lembrou que a operação exigiu decisões constantes sobre alimentação, descanso, atendimento médico e ritmo de prova.
O esporte que aproxima pessoas
O recorde foi batido no mesmo lugar em que, sete anos antes, Débora havia alcançado 800,61 quilômetros. A gerente de Marketing do shopping, Juliana Duarte, destacou como o desafio aproximou o público de uma rotina normalmente restrita aos bastidores do esporte de alto rendimento.
Maria Claudia Borges, presidente da Associação de Lojistas do Beiramar Shopping, reforçou que a conquista individual mobilizou toda a comunidade em torno do shopping durante a semana.
A realização contou com patrocínio de Olympikus, LK Design Hotel, Supermercados Imperatriz Gourmet, Água Otimista, Altenburg e DaColônia Alimentos Naturais. O desafio também teve caráter solidário, com arrecadação de ração para entidades de proteção animal.
















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